LABIADAS (LABIATAE) OU LAMIACEAE

30 May 2016

Observação: no artigo são citados termos botânicos não popularizados (em laranja), portanto, disponibilizamos um glossário anexo para melhor compreensão do texto.

 

Você conhece Alecrim, Manjerona, Manjericão e Cordão de Frade?

 

Essas plantas que encontramos comumente no Brasil pertencem a uma família botânica denominada Labiadas. O grupo está inserido na Divisão Magnoliophyta (são Dicotiledôneas), Classe Magnoliopsida e Ordem Lamiales. Atualmente o nível possui mais de 3.000 espécies catalogadas, estando reunidas em 200 gêneros. De acordo com Schultz (1990) "[...] 300 espécies são brasileiras, em parte nativas, em parte introduzidas ou adventícias". O nome Labiada que em latim se pronuncia Labiatae é derivada da palavra labia, que é o plural de labium ou lábio, devido as simpétalas de suas flores terem um formato semelhante a um lábio (SILVA, 1998). Na corola, o lábio superior é formado por duas pétalas concrescentes, já no lábio inferior é formada por três pétalas. "Apenas na menta (Mentha), na menta-de-lobo (Lycopus) e em algumas outras espécies, a corola é aproximadamente radial. Por outro lado, o lábio superior pode estar reduzido, como em Ajuga" (WEBERLING & SCHUWANTES, 1986).

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Figura 1 - Lavanda (Alfazema) cultivada em Provence (França).          Figura 2 - Flor típica de Labiadas (detalhes do cálice e corola).

 Fonte - BLOG BRASIL COM Z, 2012.                                               Fonte - UNIVERSIDAD POLITECNICA DE VALENCIA, 2016.    

 

Grande parte das espécies tem origem na região do Mediterrâneo (SCHULTZ, 1990), evitando lugares mais frios ou tropicais. São consideradas plantas do calor e preferem lugares mais abertos, declives secos e rochosos, além de montanhas ensolaradas. Geralmente as plantas são herbáceas, semi-arbustos ou arbustos, raramente árvores. A maioria das espécies que compõem a família são medicinais e muitas aromáticas, empregadas na culinária, em tratamentos estéticos, de saúde e na perfumaria (GENTCHÚJNICOV, 1976). 

 

Nas aromáticas encontramos os óleos essenciais. São produzidos por pelos glandulares ou escamas, situados principalmente nos caules e folhas. Os óleos essenciais (também chamados de óleos etéricos) são substâncias apolares, extremamente voláteis e de composição química complexa. Em algumas espécies podemos detectar mais de 50 componentes químicos (SILVA, 1998). Esses óleos participam do transporte de nutrientes, atraem certos tipos de agentes polinizadores e ao mesmo tempo auxiliam na proteção contra microrganismos patogênicos, alguns tipos de insetos e avarias provocadas por mudanças climáticas bruscas. "Quando produzidos nas folhas, são armazenados lentamente no espaço intercelular, entre a parede celulósica das células glandulares e a epiderme, provocando uma distensão natural da cutícula (camada externa protetora)" (SILVA, 1998). O pico de volatização dos óleos ocorre geralmente nas primeiras horas da manhã e no fim de tarde em grande parte das espécies. Deste modo, podemos apreciar nos períodos indicados os agradáveis e diferentes aromas sintetizados por plantas da família.

 

Características morfológicas das Labiadas.

 

O caule tem formato quadrangular (cordões colenquimáticos), raramente cilíndrico. Algumas espécies apresentam caule lenhoso, como no caso da Lavanda (Lavandula angustifolia), mas encontramos também plantas com caules herbáceos. As folhas são opostas, às vezes verticiladas, além de simples, inteiras, de formato serrado ou dentado (SCHULTZ, 1990). As flores variam de tamanho conforme a espécie e são geralmente vistosas, com inflorescências axilares. A corola pode ter um formato tubulado, campanulado ou ainda rotado. São hermafroditas. No androceu (parte masculina) encontramos quatro estames, sendo dois férteis e dois estaminódios, ou ainda todos férteis. "Os dois estames anteriores costumam ter um desenvolvimento mais intenso. Nas espécies de sálvia (Salvia) e no alecrim (Rosmarinus), só estes se desenvolvem como férteis" (WEBERLING & SCHUWANTES, 1986). Já no gineceu (parte feminina), o ovário se assenta em um disco glandular saliente e unilateralmente expandido. Geralmente é súpero, bicarpelar, bilocular, com dois óvulos em cada lóculo e falsamente tetralocular por invaginação dos carpelos (JOLY, 1987). Os estiletes são ginobásicos, o que diferencia as Labiadas das Verbenáceas. 

 

As Labiadas na culinária brasileira.

 

Em diferentes regiões do país encontramos espécies desta família sendo usadas na culinária como condimento. Estão envolvidas no preparo de pratos salgados, pães, tortas, biscoitos, doces, bebidas (alcoólicas ou não alcoólicas) e guloseimas. Como não poderíamos descrever todas as espécies do grupo neste artigo (se tornaria também contraproducente), selecionamos três para que você conheça algumas peculiaridades e aplicações culinárias:

 

ALECRIM (Rosmarinus officinalis)

 

Nome popular: Alecrim-de-jardim, alecrinzeiro.                Origem: Europa Central.

Características gerais: arbusto que mede entre 0.5 a 2 metros de altura, com folhas simples, lineares e opostas. As folhas possuem tonalidade verde-escura, coriáceas e resinosas.  As flores são pequenas, geralmente com tonalidade lilás e a corola é tubular. A fragrância de seu óleo é revigorante, semelhante ao do eucalipto. Tem preferência por declives rochosos e ensolarados. Cresce em toda a região mediterrânea, da costa até terrenos com 600 metros de altitude.

Significado do nome: do latim marinus (mar) e ros (orvalho) - o orvalho do mar.

 

 

Culinária.                                                                                                                              

Esta planta comumente acompanha os seguintes preparados:

 

- Carnes (geralmente assadas): bovina, cordeiro, porco, frango e peixes.

- Saladas.       

 

- Pães caseiros: único sabor, com azeitona ou calabresa.

 

- Batatas rústicas.        

 

- Massas caseiras e pizzas.

- Imbutidos: salsichas e linguiças.

- Sal (fino ou grosso) temperado.

 

- Óleo ou vinagre temperado.

 

 

 

 Figura 3 - Alecrim (destaque de folhas e flores).                                                               

 Fonte - Adaptado de UNIVERSIDAD POLITECNICA DE VALENCIA, 2016.  

 

 

HORTELÃ-PIMENTA (Mentha piperita)

 

Nome popular: Menta, Menta-verdadeira, Hortelã-das-cozinhas.                 Origem: Inglaterra.

Características gerais: planta herbácea, rizomatosa e suas folhas são pequenas, verde-escuras e de formato acuminado. Existem cerca de 20 espécies de Hortelã, a piperita é a mais cultivada e utilizada na culinária e medicina. É um híbrido resultante do cruzamento de duas espécies: a M. spicatta e a M. aquatica. Extremamente aromática, possui uma fragrância fresca, ardida e estimulante. Prefere ambientes ensolarados, solos úmidos e profundos. É encontrada em abundância nos EUA, Japão, Itália, Inglaterra e França.

                                                                                           

                                                                                             

Culinária.

 

Podemos encontrá-la nos preparados abaixo:

- Carnes: carneiro, frango (grelhado), peixes e porco.

 

- Bolinhos salgados (contendo carnes ou veganos).

 

- Saladas, caldos, leguminosas (pratos frios).

 

- Cremes, omeletes e saladas de frutas.   

        

- Bolos, cheesecakes, docinhos, sobremesas e sorvetes.

 

Chás quentes ou gelados.

 

Sucos e coquetéis (com ou sem álcool).       

 

 Figura 4 - Hortelã-pimenta (destaque de folhas e flores).    

 Fonte - Adaptado de UNIVERSIDAD POLITECNICA DE VALENCIA, 2016.

 

 

TOMILHO (Thymus vulgaris)

 

Nome popular: Timo, Tomilho-vulgar.              Origem: Bacia mediterrânea ocidental.

Características gerais: esta planta é um semi-arbusto, medindo entre 15 a 30 cm de altura. Seu caule é lenhoso, suas folhas são pequenas e de formato lanceolado. Suas flores são delicadas, de tonalidade rosa claro. Tem preferência por ambientes quentes e iluminados. Há muitas variações do gênero Thymus, como também subespécies e quimiotipos. É uma planta aromática que exala uma fragrância forte e picante. 

Significado do nome: do grego Thymon - significa coragem.

 

 

Culinária.

   

O Tomilho é usado para saborizar os seguintes alimentos:

 

- Carnes: bovina, carneiro, porco e frango.

 

- Arroz, feijão, legumes cozidos e omeletes.

 

- Batatas rústicas, ensopados e sopas.

 

- Biscoitos, muffins, pães, quiches e tortas.

 

- Patês, cremes e molhos.

 

- Massas e pizzas.

 

- Sal, óleo ou vinagre temperados.         

 

 Figura 5 -Tomilho (ênfase em flores e folhas).

 Fonte - Adaptado de UNIVERSIDAD POLITECNICA DE VALENCIA, 2016.

 

 

Para finalizar este tópico, compartilhamos o endereço do site Temperaria que disponibiliza receitas com o uso de plantas Labiadas. Se desejas compartilhar alguma receita pessoal ou familiar conosco, envie uma mensagem através da página contato, por e-mail ou pelas nossas redes sociais (Google PlusTwitter). Sua contribuição será divulgada no site. 

Adendo.

Muitas espécies podem ser cultivadas em pequenos espaços, assim, mesmo as pessoas que residem em casas sem jardins ou apartamentos poderão usufruir da companhia destas fantásticas plantas, dos seus aromas cativantes e de seus benefícios culinários e medicinais. Para tanto, devem consultar cultivadores quanto ao período propício para plantio, frequência da rega e de exposição ao sol. Cultivar plantas em residências auxilia na conservação destas espécies, contribuindo para a biodiversidade.

 

Glossário:

 

B

Bicarpelar - possuidor de dois carpelos.

Bilocular - apresenta duas cavidades.

C

Concrescentes - órgãos que estão unidos.

Cordões colenquimáticos - cordas compostas por um tecido de células alongadas que oferece sustentação em fase de crescimento vegetal.

D

Dicotiledôneas - plantas que possuem dois ou mais folhetos embrionários (cotilédones) na semente.

E

Estaminódios - estame reduzido ou modificado, que não produz pólen.

G

Ginobásico - estilete que se insere na base de um ovário dividido em vários lobos. 

L

Lóculo - pequena cavidade.

Q

Quimiotipos - pequena variação na composição química de óleos essenciais, influenciada pelas condições ambientais locais. 

R

Rotado - um tipo de corola, com tubo curto e limbo plano.

S

Simpétalas - pétalas que são soldadas umas nas outras.

Súpero - que está acima do pedúnculo.

T

Tetralocular - quando apresenta quatro cavidades.

V

Verticiladas - folhas que se originam do mesmo nó, obtendo formato de uma estrela.

REFERÊNCIAS:

BLOG BRASIl COM Z. É possível ver algum campo de lavanda na Provence em maio? Disponível em: <https://blogbrasilcomz.com/2012/03/26/e-possivel-ver-algum-campo-de-lavanda-na-provence-em-maio/> Acesso em: 05 mai 2016.

GENTCHUJNICOV, Irina Delanova. Manual de Taxonomia Vegetal - plantas de interesse econômico. São Paulo: Ed. Agronômica Ceres, 1976.

JOLY, Aylthon Brandão. Introdução à taxonomia vegetal. 8ª ed. São Paulo: Companhia Ed. Nacional, 1987.

SCHUlTZ, Alarich. Introdução à Botânica Sistemática. 6ª ed. Porto Alegre: Sagra - Ed. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1990.

SILVA, Adão Roberto. Tudo sobre Aromaterapia. 2ª ed. São Paulo: Roca, 1998.

TEMPERARIA. Livro de receitas. Disponível em: <http://temperaria.com.br/indice-de-receitas/> Acesso em: 18 mai 2016.

UPV. Família Labiadas (Parte IV - Tema 20). Disponível em: <http://www.euita.upv.es/varios/biologia/temas%20angiospermas/Ast%C3%A9ridas/Labiadas/labiadas.htm> Acesso em: 05 mai 2016. 

WEBERLING, Focko; SCHUWANTES, Hans Otto. Taxonomia Vegetal. São Paulo: EPV, 1986.

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